6 de julho de 2010

O Rei dos Pesos Pesados



A geopolítica dos pesos pesados no MMA mundial mudou em apenas uma semana. O inconteste número um da divisão é agora Brock Lesnar. A vitória dele sobre Shane Carwin somada à derrota de Fedor Emelianenko para Fabrício Werdum resulta nesta nova configuração do esporte. O argumento é simples: agora, o UFC é, indiscutivelmente, o melhor evento de MMA do planeta. Havia senões quanto a isso, uma vez que Shinya Aoki e Fedor lutavam pelo Strikeforce e eram os maiores em suas respectivas categorias. Aoki, contudo, foi derrotado por decisão unânime em abril deste ano por Gilbert Melendez, na mesma noite, aliás, em que Jake Shields derrotou, também unanimemente, a Dan Henderson, retendo o cinturão dos médios daquela organização – para logo depois descartá-lo, pois vendeu seu passe ao UFC, confirmando assim que todos os lutadores tops estão, hoje, na folha de pagamento da Zuffa, LLC (entre eles o elenco do WEC, a elite dos pesos ligeiros: leve, pena, galo).

Ao Strikeforce, depois de Melendez vs Aoki (Strikeforce: Nashville, 10 de abril, 2010), só restou Fedor como galinha dos ovos de ouro. Mas quem cantou de galo mesmo foi Werdum. Fedor vencido de maneira inquestionável: um minuto e nove segundos de luta, um triângulo bem encaixado, a desistência que fez história.

Havia muito tempo que Fedor não fazia uma luta decente. Sua luta anterior contra Brett Rogers (Strikeforce: Fedor vs Rogers, 7 de novembro, 2009) não havia me convencido. Eu sei, foi uma luta interessante de ver, mas achei uma vitória pouco expressiva. Ele sofreu golpes e se quebrou todo (mão e nariz) no primeiro round; venceu no segundo um oponente claramente cansado. É este tipo de vitória que querem atribuir àquele que dizem ser o melhor peso pesado da história do esporte, um dos melhores peso-por-peso e o então reinante em sua categoria? Eu atribuo este tipo de vitória a Edson Conterrâneo, não ao Último Imperador. O adversário dele, Rogers, tinha a seu favor um currículo imaculado, só vitórias em dez lutas. Antes de Fedor, lutou e venceu a Arlovski, que àquela época (Strikeforce: Lawler vs Shields, 6 de junho, 2009), era o nome famoso de um queixo de vidro. Queixo este que o próprio Fedor já havia quebrado poucos meses antes (Affliction: Day of Reckoning, 24 de janeiro, 2009). Quer dizer...

A gente pode fazer a seguinte brincadeira. Discutir qual foi a última grande vitória de Fedor. Pra mim, foi a que aconteceu em 28 de agosto de 2005, pelo Pride, em Saitama, Japão, contra Mirko Cro Cop. De lá pra cá, não vi nenhum oponente à sua altura.

Passou o tempo e, em 26 de junho de 2010, o que a maioria maciça dos fãs de MMA queria era ver a provável vitória de Fedor sobre Werdum, outro adversário cotado para ser boi de piranha.

Fabrício “Vai Cavalo” Werdum triangulou o Último Imperador, . Para quem acha que isso foi uma zebra, recomendo repensar o combate. A começar pelas declarações de Fedor, no decorrer de junho, sobre se aposentar. Uma nova geração tem ocupado o lugar dos antigos na divisão mais glamorosa das lutas – e muitos pesados têm descido de categoria para se acomodarem tanto à idade quanto ao vigor físico. Fedor viu o fim se aproximando. Além do mais, sua recusa em lutar no UFC sempre me soou estranha. O natural é a gente se testar com adversários fortes, que possam oferecer riscos. Mas se recusar a comprovar a própria soberania é esquisito. É pouco esportivo, inclusive.

A vitória de Werdum foi uma zebra? Foi improvável, mas não sei se foi zebra. Zebra foi Serra vs St Pierre I, aquilo foi zebra. Uma vitória improvável baseada na sorte. O que não foi o caso de Fedor vs Werdum. Mesmo que você argumente que Fedor vacilou por mergulhar na guarda do Werdum duas vezes seguidas, ou seja, mesmo que você atribua o resultado da luta ao equívoco do Fedor e não à habilidade do Werdum, lembre que Werdum foi campeão brasileiro de jiu jitsu e campeão no ADCC. Veja bem, Fedor venceu Minotauro duas vezes de dentro da guarda dele . Era por que isso que Fedor realmente era grande: vencia os oponentes onde eles eram melhores. Não foi vacilo ele estar na guarda do Werdum, foi confiança. O resultado, porém, foi outro. Em suma, não foi sorte de Werdum, nem equívoco de Fedor. Acho que não foi zebra.

A vitória de Werdum era só o primeiro movimento de um realinhamento estelar. Uma semana depois (UFC 116, 3 de julho, 2010), o combate Lesnar vs Carwin confirmaria a mudança no trono do clã Heavyweight.

Carwin não é um Brett Rogers. É verdade que vimos muito pouco dele em doze lutas, mas o pouco que ele mostrou foi suficiente pra nocautear os doze adversários contra quem lutou, incluindo aí Frank Mir e Gabriel Gonzaga. O cara não é qualquer um. O primeiro round mostrou isso: ele botou Brock de costas no chão, coisa que não pensava possível. Pena ele ser é um cara grandão, que precisa de muito oxigênio pra viver – e que nunca lutou mais de cinco minutos na vida. De qualquer forma, o primeiro round foi espetacular e valorizou a ambos os lutadores: Carwin no mercado, Brock na vitória.

Que vitória de Brock Lesnar! O sacode que ele sofreu no primeiro round não foi qualquer sacode. Foi bruto. Mesmo. Mas ele soube se segurar, e frustrar Carwin. Digo até o exato momento em que você poderá ver a frustração começar a aparecer no rosto de Carwin: o cronômetro do UFC marcava três minutos e nove segundos. Confira o vídeo da luta.

Katagatame. Quem imaginaria que Brock Lesnar venceria por finalização? Antes de aplicar o estrangulamento, eu já imaginava que ele partisse para montada pra brutalizar o exausto Carwin até o árbitro interromper a luta e declarar o nocaute, ou nocaute técnico. Mas ele foi pra finalização. Uma mudança de jogo que, além de inteligente, mostra como evoluiu. Com apenas quatro lutas no currículo, Brock Lesnar se tornou o campeão peso pesado da maior organização de MMA do planeta. Na sexta luta profissional, venceu como um autêntico lutador de artes marciais mistas um adversário invicto que nocauteou todos seus oponentes.

O que é mais impressionante é que é apenas o começo para Brock. Ele ainda está em aprendizado. Imagine como será quando ele estiver com a trocação mais afiada? Ninguém segura este homem.

Longa vida ao Rei.

28 de maio de 2010

A literatura de Giacomo Casanova

Desde a primeira vez em que ouvi "Casanova", o significado desde nome foi claro e simples. Talvez não lembre os detalhes da ocasião, mas sei que foi em algum desses eventos ingênuos, anteriores à adolescência, que envolvem coleguinhas de sala, na clandestinidade do recreio, e uma professora chata que interrompe a brincadeira, dá sermão, ameaça levar a sem-vergonhice à diretoria e, para terminar, alerta a garota do perigo que é aquele "projeto de casanova".

Algum tempo depois, descobri que casanova, ora elogio, ora xingamento, mas sempre bem-vindo, paga tributos a Giacomo Casanova, um conquistador veneziano do século XVIII, um homem irresistível, deflorador de centenas de virgens e amante de milhares de mulheres, um homem que, em meu teatro mental, por causa de Federico Fellini, sempre associei, na fisionomia e na indumentária, ao canadense Donald Sutherland. Isso era tudo o que sabia sobre Casanova ― e era tudo o que me parecia necessário saber. Foi um conquistador, desses de dar orgulho ao sempre carente, e muitas vezes inseguro, gênero masculino.

Hoje, porém, eu conheci Casanova. Graças a Ian Kelly, autor de Casanova ― Muito além de um grande sedutor (Jorge Zahar, 2009, 370 págs.). As milhares de mulheres que, dizem, ele conquistou são fabricações de terceiros; e o personagem que virou substantivo em várias línguas é unidimensional e medíocre quando comparado ao verdadeiro Giacomo Casanova, que, de uma ideia sexista, de proezas numéricas e rarefeitas, ganhou vida e narrativas próprias numa leitura que foi uma das melhores do ano, até agora.

Esta biografia (ótima edição da Jorge Zahar Editora), além de escrita na consagrada forma fluida e lúcida que caracteriza as melhores obras do gênero, fala da Europa pré-revolucionária, a época ideal para ser o palco onde a história da vida de Casanova seria encenada.

Ele nasceu em 1725, 2 de abril, em Veneza ― cujo carnaval se estendia por meses (de outubro à Quarta-Feira de Cinzas) e durante o qual o uso de máscaras era obrigatório a todas as idades e a todas as classes. O anonimato que as máscaras conferem e a permissividade em que isso implica alimentam as vontades mais secretas e pungentes de uma sociedade rigidamente dividida e de um Estado tão policialesco como o de Veneza. Um ambiente como este é capaz de gerar libertinos por cissiparidade. Este era o mundo do pequeno Giacomo. Sua família, aliás, representava parte da essência do Estado veneziano, o apelo estético e mascarador da vida e o comportamento sexualmente espúrio entre classes: sua mãe, atriz da commedia dell'arte, seu pai de registro, ator e dançarino, ambos os possíveis pais biológicos, patrícios que se ocupavam empresariando o teatro. Casanova vivia o jogo das máscaras desde pequeno.

O autêntico filho de Veneza, no entanto, viverá a vida que o consagrou fora de sua cidade natal. Viajará por toda a Europa e será um dos melhores autores do Gran Tour, a literatura de viagens.

Sua vida "adulta" começou como seminarista. Nada mais impróprio. Não demoraria a fugir do seminário. Claro, antes da fuga, ele havia de aprontar uma das suas, ao causar um enorme rebuliço por conta de visitas noturnas pouco ortodoxas a outros seminaristas. Contudo, no futuro ele seria habitué de conventos, onde freiras lascivas o esperavam e madres de muitos amigos realizavam abortos. Serviço este que Casanova solicitou algumas vezes.

O próximo papel de Casanova será o de militar. Depois, o de curandeiro, personagem graças ao qual terá um suporte financeiro fixo por décadas. A lista continua: diplomata, cabalista, empresário (criador de loterias), espião, chef, bibliotecário, romancista e outros. Eu teria dor na consciência em lhe contar mais do que isso. Roubaria de você o prazer da leitura.

Prazer na leitura foi, inclusive, um dos mais queridos por Casanova, leitor ávido, bibliófilo terminal, traduziu a Ilíada e tudo.

A beleza literária (estética) das coisas talvez seja o mais fascinante em Casanova. Não só ele viveu tudo aquilo, como teve o prazer da experiência multiplicado por narrar sua vida e saber que ler sua história seria o prazer literário de alguém.

História da minha vida, um colosso memorialístico de 12 volumes, é o livro no qual ele narra fracassos no amor e nos negócios, doenças venéreas de todo o tipo e seus tratamentos mais eficazes (e os nem tanto), conquistas amorosas de todo o gênero (inclusive incestuosas), os segredos místicos da cabala e seus usos menos probos, riquezas ganhas e perdidas, tudo.

No fim da vida, Casanova foi um grafômano soberbo. Suas memórias são narrativas prolixamente detalhadas, o volume de sua correspondência é ociosamente alto, a extensão dos seus romances é enfadonhamente longa.

Tinha de ser assim.

Casanova foi um sensualista, um dos maiores da História. Ninguém fez sexo tão bem quanto Casanova, inclusive porque ― que curioso! ― o sexo com amor era sua especialidade. Era incômoda a ele a ideia de sexo sem envolvimento emocional (mas ele fez este e outros sexos). Ninguém soube como ele apreciar o prazer à mesa, nem que fosse para comer um biscoitinho de Murano. E ninguém, é claro, soube unir com tanto requinte o sexo e a comida (preparava iguarias, a serem consumidas antes, durante e depois, com saliva e cabelos das amantes). E só ele soube unir ambos à literatura, ao nos deixar relatos tão preciosos de suas aventuras notáveis.

Tinha de ser assim porque, ainda jovem, Casanova, como você lerá na narrativa de Ian Kelly, experimentou, mesmo que numa dose pequena e pelos critérios de uma mente pouco vivida e autocentrada como a sua, o prazer da "glória literária". Ao final de sua vida, o escritor teve à sua pena um personagem extraordinário, ele mesmo, Giacomo Casanova.

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20 de maio de 2010

O comerciante abissínio II

Conversas de literatos, daquelas carregadas de afetações e pseudoerudição, quando chegam ao nome de Arthur Rimbaud seguem padrões já conhecidos por quem é afeito a leituras. Ou os literatos se concentram na vida poética de Rimbaud, o gênio adolescente que mudou as letras francesas e destruiu a vida de seu parceiro, Paul Verlaine; ou ressaltam a guinada existencial do poeta, que de súbito esqueceu a poesia e, agora entra o maior dos pecadilhos, foi para África "traficar armas e escravos". Esse é o roteiro básico dos entendedores.

A vida adolescente de Rimbaud, a que entrou para História, é sabida. É muito fácil falar dela sem cometer grandes deslizes. Um adolescente genial, resumindo. Seus poemas falam tudo. Além do mais, havia muitos conterrâneos narrando a Paris de Rimbaud ― a História está cheia de capítulos sobre o jovem no meio literário em que viveu. Essa fase de sua vida não apresenta obstáculos aos biógrafos, leitores, pesquisadores.

Curiosamente, não podemos dizer o mesmo da segunda fase de sua vida, a em que ele matou o poeta Arthur Rimbaud. Este outro Rimbaud foi um comerciante em Harar, Etiópia (Abissínia). Vendia tecidos, utensílios, ervas, metais.

Dizer que Rimbaud "traficava armas e escravos" é apenas um recurso narrativo, daqueles que ficam bem nos livros do Enrique Vila-Matas. É um fetiche. O adolescente genial da literatura francesa abandona a pena para vender almas e alimentar a morte. (O período anterior não ficou tão afetado quanto gostaria.) Um grande equívoco.

Rimbaud abandonou a literatura, mas não a escrita. O "curioso" é isso: ele manteve uma rica correspondência com amigos e familiares, cartas nas quais ele narrou vários episódios de sua vida africana e descreveu muito do que comerciava e do que pretendia vender. Além disso, como é hábito entre os que convivem com os grandes, muitos dos seus contemporâneos africanos escreveram memórias; nestas memórias, há sempre um capítulo sobre o convívio com o comerciante de olhos azuis. Ainda assim, com tanta documentação sobre esse período, ninguém resiste ao charme de dizer: "Ele largou tudo e virou traficante de escravos e armas". Bem, ele se transformou noutra pessoa, sem dúvida quanto a isso. Quanto a isso.

É possível nomear ao menos uma pessoa como uma das, digamos, incentivadoras da confusão biográfica: Enid Starkie. Por ter menos habilidades em francês do que imaginava, e por não entender a economia etíope no que se refere a empregados domésticos, a irlandesa poluiu gerações com um mal-entendido nascido da deficitária tradução de uma carta de Rimbaud. Sabe, essas pesquisas realizadas entre quatro paredes sobre seres humanos e lugares de verdade.

Acredito que existe também uma dose de preconceito envolvida nessa repetida confusão. Imagino "o literato": leitor ávido, aspirante a poliglota e sedentário; um enaltecedor recalcitrante do cânone e que não se cansa de afirmar que a literatura de hoje (um "hoje" de mais de cinquenta anos) é uma merda; um crítico implacável que não valoriza nenhuma literatura produzida por jovens, a não ser a de Arthur Rimbaud (ele não menciona Álvares de Azevedo, nem outro jovem lusófono qualquer, porque não gosta de ler em português); um homem de vida rotineira e insípida e que vive mais suas próprias abstrações poéticas ― produzindo, a partir delas, apenas diatribes venais dirigidas aos demais acadêmicos (ah, ele é acadêmico, professor adjunto de linguística).

Aposto que você deve conhecer personagens do mesmo calibre, e provavelmente você não é assim, porque "o literato" não lê na internet, a não ser para publicar as próprias palavras, seja em textos quilométricos, seja em vídeos de dicção pomposa, se estiver mais conectado às maravilhas audiovisuais da Web.

Enfim, uma figura como "o literato" deve preferir o ídolo transformado num ser muito mais romântico e aventureiro do que um comerciante andarilho, quase um mascate. Um traficante de armas e escravos.

Até os vinte anos ele foi o poeta Arthur Rimbaud; a partir dos 23 ele saiu pelo mundo; chegou à Abissínia com 25 anos e por onze anos foi um comerciante perfeccionista. Nunca mais escreveu uma poesia e ficava extremamente irritado quando mencionavam seu passado. Quase ninguém sabia que ele era o poeta Arthur Rimbaud. Os que souberam, souberam por conta própria: ele nunca falou nada sobre sua vida literária, nem sobre ser uma celebridade poética na França. Seu passado era o de um estranho.

Pois bem, não gostam desse Rimbaud. Esse Rimbaud comerciante é pouco literário, não é um personagem no qual se espelhar, ou com o qual emular. É um Rimbaud que cospe nas Iluminations e em Une saison en enfer (este, aliás, único livro que Rimbaud realmente quis publicar, as demais obras foram editadas por e aos cuidados de Verlaine, ou mesmo por terceiros, não-autorizadas).

É justamente nesta transformação que está todo o fascínio por Arthur Rimbaud. O autor de Uma estadia no inferno é o mesmo comerciante da Abissínia? Duas pessoas tão diferentes, dois seres humanos distintos que viveram sob a mesma pele. Sua vida foi sua maior obra de arte. L'oeuvre-vie, como dizem os franceses, "obra-de-vida".

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16 de maio de 2010

10 de maio de 2010

UFC 113: Machida vs Shogun II

Maurício “Shogun” Rua é o novo campeão na categoria meio-pesado (94kg) do Ultimate Fighting Championships – UFC, a maior organização de MMA do mundo. O cinturão pertencia a Lyoto Machida, um gênio estrategista, que perde pela primeira vez na carreira – uma carreira até agora impecável. Manter-se tanto tempo invicto e de tantas lutas sair ileso e vencê-las com brilhantismo fazem parte da inteligência que Machida soube usar com excelência até agora. Isso tudo, no entanto, estava em xeque desde o UFC 104 (Los Angeles, EUA, outubro de 2009), quando Shogun e Machida se enfrentaram pela primeira vez. Sete meses depois, xeque-mate de Shogun – aplicado não somente contra seu oponente, você verá por quê.


O primeiro evento Machida vs Shogun foi controverso. Machida venceu por decisão unânime dos juízes, unanimidade esta concedida por ter vencido os três primeiros assaltos de uma luta de cinco. Apesar vitorioso pela aritmética da pontuação, Machida saiu do Octógono vaiado, tendo de suportar o ginásio inteiro saudando a Shogun como verdadeiro vencedor. O então campeão não só demonstrou pouca eficácia em seus golpes contra o adversário, como, fato inédito, deixou o ringue machucado: mancando, com costelas feridas e lábio cortado.

Ninguém nunca havia atingido Lyoto Machida, o mestre da esquiva. Mesmo assim, ele permaneceu vencedor. Aquele evento mostrou como a arbitragem de MMA ainda é deficitária, pelo menos nos EUA, onde “chute nas pernas não vencem lutas”, segundo o famigerado juiz Cecil Peoples, oriundo do boxe – luta que não usa golpes de perna, você bem sabe. Maurício Shogun, durante cinco assaltos, golpeou repetidamente Machida com chutes nas pernas, eliminando as notórias velocidade e mobilidade do campeão.

A revanche foi imediatamente acertada. Dana White, presidente do UFC, entrou no Octógono para condecorar o ainda campeão de direito e, como é de sua índole, disse ao desafiante Maurício Shogun, deliberadamente, não se importando com as câmeras, nem com os espectadores presentes, nem com os milhões de telespectadores mundo afora: “Pra mim você venceu a luta”.

Machida vs Shogun II. Assim como da primeira vez, Machida era o favorito nas bolsas de aposta, embora a margem de diferença fosse menor desta vez. O fator inteligência estratégica sempre pesou a seu favor nestes sete meses, e desde quando seu nome começou a se tornar popular, na verdade. Curiosamente, foi exatamente por saber usar a estratégia que muitos deram a Shogun a vitória no UFC 104. Por ter realizado uma luta clínica, enxadrística, com um desempenho que deixou a todos boquiabertos, esperava-se que Shogun não se superasse em inteligência, porque, afinal, Lyoto Machida é Lyoto Machida. Porém, nesta segunda luta, Shogun superou a todos. Indiscutivelmente.

Shogun venceu Machida incontestavelmente. O epítome de uma vitória absoluta: nocaute de primeiro assalto. Mas Shogun não só derrotou Machida. Ele pôs em xeque a maneira de se lutar MMA hoje. Este esporte não comporta mais “lutadores filosóficos”: aqueles que não abrem mão dos princípios de sua luta de origem. Machida, o guerreiro invicto, o carateca mestre da filosofia da esquiva e do contra-ataque, importantes pilares do caratê, foi duramente abatido. Antes dele, o outro lutador filosófico, Demian Maia, igualmente gênio, mas noutra área, o grappling (combate agarrado de solo), pagou caro por seu exclusivismo. A filosofia suave do jiu jitsu, de não causar danos nem a si nem ao oponente, que manteve Maia invicto por tanto tempo, evanesceu com um nocaute. Nate Marquardt (UFC 102, Portland, EUA, agosto de 2009) demonstrou com um só soco o quão pouca era a intimidade de Maia com golpes traumáticos: chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e habilidades correlatas, como o clinch. Esta derrota fez Maia buscar a necessária e urgente instrução em boxe.

Lyoto Machida era o dono do cinturão da categoria mais disputada do UFC e ele derrotado é a morte da filosofia unidimensional de luta. Não ignoro o fato de que Machida tenha sido um grande competidor de sumô, nem que é faixa-preta de jiu jitsu (tendo demonstrado este conhecimento noutras lutas, finalizando oponentes no solo), mas o caratê é sua filosofia de vida, além de legado familiar. Shogun já o havia decifrado há sete meses e no último sábado o desmantelou, mostrando que o lutador deve evoluir no aprendizado e se adaptar às minúcias de cada luta. Porque, cedo ou tarde, seus oponentes o decodificarão. A mobilidade circular, a habilidade à longa distância, o jogo de contra-ataque, toda a mágica de Machida foi desvendada em suas últimas duas lutas. Uma hora isso teria de acontecer. Aconteceu o mesmo a Minotauro, a Chuck Lidell, a Cro Cop, a tantos outros. Uma hora vão “manjar” seu jogo todo.

Não só manjá-lo, excedê-lo. O kickboxing de Cro Cop já foi considerado o melhor do mundo entre os pesos-pesados e russo Fedor Emelianenko o venceu no kickboxing (Pride, Saitama, Japão, agosto de 2005); a guarda de Minotauro é uma das melhores do mundo e o mesmo Fedor o venceu, duas vezes, de dentro de tão temida guarda (Pride, Saitama, março de 2003 e dezembro de 2004).

Shogun havia decodificado seu oponente no primeiro combate, anulando por completo o caratê Machida e surpreendendo a todos por ter alterado seu próprio estilo personificando um lutador tão cerebral, coisa que ninguém esperava. Mas desta vez, no UFC 113 (Montreal, Canadá, maio de 2010), Shogun sobrepujou o campeão invicto, vencendo o carateca com uma tática que, em teoria, era vantajosa para Machida. Shogun atacou, tomou a iniciativa da luta e aniquilou o extraordinário contra-ataque Machida. Ainda mais impressionante é saber que Shogun passou por uma cirurgia há apenas sete semanas: apendectomia. Cirurgia da qual o tempo médio de recuperação é de quatro a seis semanas.

A carreira de Lyoto Machida depende de uma grande transformação interna. Já é impossível continuar o mesmo jogo que o manteve vitorioso no MMA desde 2003. A mesma necessidade de se reinventar já assombrou o próprio Shogun. Ao fim do Pride em 2007, seguiu-se um período em que Shogun esteve muito desacreditado. Foi derrotado por finalização por Forrest Griffin (UFC 76, Anaheim, EUA, setembro de 2007), um lutador de muita raça e de técnica ínfima; contundiu seriamente o joelho e por isso ficou mais de ano sem lutar; recuperou-se e venceu sem convencer o decrépito Mark Coleman (UFC 93, Dublin, Irlanda, janeiro de 2009); e derrotou Chuck Lidell (UFC 97, Montreal, Canadá, abril de 2009), outro oponente em decrepitude. Foi disputar o cinturão contra um atleta de anunciava uma nova era no MMA, a “Era Machida”. O que aconteceu depois você já sabe.

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Sobre os demais combates principais do UFC 113:

- Georges St. Pierre ganhou de presente um raso desafiante ao cinturão dos meio-médios (77kg). Josh Koscheck, além de chato, é um lutador monótono, como sua vitória sobre Paul Daley claramente demonstrou. A única habilidade aparente de Koscheck é saber aplicar quedas, coisa que não vale absolutamente nada para enfrentar o campeão St. Pierre. Já Paul Daley, que prometia tanto ao MMA com seu excepcional poder de nocaute, foi definitivamente varrido do UFC por seu comportamento “koscheckiano” após a luta. Sua exclusão permanente do UFC mostra o quão sério é este esporte e esta organização.

- Kimbo Slice, Kimbo Slice... tsc tsc tsc. Que vergonha. Uma vitória sem brilho e uma derrota patética lhe garantiram férias por tempo indeterminado do Ultimate. Seu algoz, Matt Mitrione, já contabiliza um cartel profissional extenso: duas lutas, duas vitórias. Mas também foi acometido pelo “mal de Kimbo” e venceu sem purpurinas. Na verdade, a ênfase neste caso é outra mesmo: não foi Mitrione que venceu, foi Kimbo que perdeu.

- Sam Stout vs Jeremy Stephens. Stephens venceu Stout por decisão dividida. Nada mais eloqüente pra mostrar que ambos não são mais meros lutadores, nem são ainda grandes desafiantes. Enfim, mais lutas para os rapazes.

- Ah, Patrick Côté... Vencido pela inatividade: 18 meses sem lutar. Mesmo assim deu trabalho para Alan Belcher. E Belcher evolui a olho nu, mas ainda não o vejo como desafiante ao cinturão.

7 de maio de 2010

Uma pequena dúvida literária

O inspetor Javert captura Jean Valjean. Valjean é levado para cadeia, algemado. Porém, na mesma noite, ele escapa e surpreende a velha porteira de sua casa: “quebrei um ferro da janela, pulei do alto de um telhado e eis-me aqui”.

A simpática porteira, mesmo sabendo da prisão de seu empregador, quando chegou a noite, à hora em que ele costumava chegar do trabalho, realizou as mesmas tarefas de sempre, inclusive a de pendurar a chave do quarto de Valjean no prego próximo à janela de entrada da casa; e, ao lado da chave, pôs o castiçal, para que ele o acendesse e pudesse subir as escadas. Duas horas depois ela se deu conta de que seu patrão não chegaria – estava preso. Levantou-se afobada da cama e dos sonhos: “Ora, meu Jesus! E eu que pendurei a chave no prego!”. Foi então desfazer tudo. Mas espantou-se ao ver uma mão se introduzir pela janela, pegar a chave e o castiçal e acender a vela. Era Jean Valjean.

A narração de Victor Hugo continua assim: “Ninguém jamais soube como [Valjean] conseguira penetrar no pátio interno sem abrir o portão principal. É verdade que levava sempre no bolso a chave de uma porta lateral; mas, como já o haviam revistado, certamente não a tinha consigo naquele momento. Este ponto nunca pôde ser esclarecido.” Esta é uma cena do capítulo V, intitulado “Sepultura Digna”, do livro oitavo, “Contragolpe”, da primeira parte, “Fantine”, d’Os Miseráveis.

“Este ponto nunca pôde ser esclarecido”, diz o narrador de Victor Hugo. Não saber como Valjean chegou até ali, sem ter aberto o portão principal, confere a Valjean habilidades de um Jason Bourne ou de um samurai. Valjean é inteligentíssimo e extremamente forte, é ídolo. Mas sempre me pergunto se a intenção de Victor Hugo era a de conferir tais poderes, ou impressão de poderes, a ele, que é a provável, pois Jean Valjean é Jean Valjean, ou, quando penso nisso preparando uma peperonata ao som de Clara Nunes, se ele, Victor Hugo, por estar um pouco vexado para encontrar Juliette Drouet, resolveu deixar o mistério assim mesmo porque não conseguia escrever a cena de Valjean fazendo salto com vara para transpor o muro – só pensava na senhorita Drouet.

Continuo o exercício enquanto degusto a peperonata, tomando suco de beterraba. E se Victor Hugo pensou em fazer Valjean cavar um túnel sob o muro, um túnel que desse no pátio de sua própria casa, usando ferramentas da ACME Corporation? Imagino a sequência com Liam Neeson, numa das mais recentes encarnações de Valjean no cinema, com aquele porte soberano, aquele rosto majestático e aquele nariz inexcedível, cavando com uma a pá idêntica às que o Coiote usa nos seus curiosos planos de capturar o Papa-Léguas.

O exercício imaginativo acaba quando prato e copo não guardam mais vestígios nem de pimentões nem de beterrabas. Mas continuo com a vontade de saber como Victor Hugo escreveu este capítulo, principalmente esta cena entre Valjean e sua porteira, quando ele a surpreende tarde da noite, já um fugitivo. A chegada dele é narrada do ponto de vista dela, pois é a única possibilidade: o ponto de vista dele entregaria todo o ouro e hoje nós saberíamos o que ele fez para chegar ao pátio interno, sem abrir o portão principal. Nenhum outro ponto de vista é aceitável, visto que somente a porteira o viu chegar: se outra pessoa o visse, Valjean deixaria de ser o fugitivo invisível.

Há também o detalhe do castiçal. A chave, a porteira a pendura no prego, que está na parede; já o castiçal, “ao lado”. Ao lado? Nas palavras de Victor Hugo (pela tradução exemplar de Frederico Ozanam Pessoa de Barros): “Na hora em que Madeleine [Jean Valjean] costumava chegar, a boa porteira levantou-se maquinalmente, tirou de uma gaveta a chave do quarto do Sr. Madeleine e o castiçal que ele costumava levar sempre que subia a seus aposentos; depois colocou a chave no prego onde ele costumava encontrá-la e pôs o castiçal ao lado, como se o estivesse esperando”. Poxa vida, ela também pendura o castiçal? É bem provável que não. Havia ali um aparador, encostado à parede? Aliás, Valjean acende o castiçal. A porteira também deixou por ali fósforos? Valjean andava com algum Zippo no bolso?

Enfim, dúvidas. Dúvidas pequenas, envolvendo detalhes que não alteram a qualidade d’Os Miseráveis. Veja você, é mais fácil ler Os Miseráveis do que qualquer coisa do José de Alencar. Um livro caudaloso de leitura corrente.

30 de abril de 2010

David Fokos


26 de abril de 2010

22 de abril de 2010

O Tarô de Lost









Lost Tarot Cards, de Alex Griendling (via Trend Land).

20 de abril de 2010

Precisamos falar sobre o Kevin

Eva Katchadourian é uma editora de guias de viagem, norte-americana descendente de armênios e de laços familiares rarefeitos. Ela mesma viaja para todos os países sobre os quais sua editora, A Wing & a Prayer, publica os guias, da Escandinávia ao Oriente Próximo, da América Central à África Setentrional, e não importa se onde ela se hospedará seja ou um cinco estrelas caribenho para turistas endinheirados ou um albergue aos pedaços que amendrontaria qualquer beduíno marroquino. Assim resumida, você pensaria que ela é uma mulher sem medos.

Ela precisava de imagens do vale do Ródano para um dos seus guias, mas estava em solo norte-americano. Indicaram a ela um profissional da área, Franklin Plaskett, diretor de locação, tarimbado em achar cenários naturais para filmes e campanhas publicitárias. Ela achou muito inconveniente contratá-lo para ele ir à França, gastar com hospedagem e adjacências logísticas. Mas ele foi impertinente e afirmativo: não seja ridícula. Ele achou um vale do Ródano na Pensilvânia.

Assim começou o flerte que daria casamento. Ela, franzina e de feições "étnicas", cresceu numa família frágil, descende de um povo historicamente resistente mas sofrido e que amarga um passado recente de muito sangue; uma viajante, uma sensual, fã do "exótico", desde comidas a pessoas, mulher de cabeça aberta e simpatizante de mistérios; uma estadunidense estranha no próprio país; uma democrata, leitora da New Yorker e de E. M. Forster, que não se privava de demonstrar repulsa ao New York Times e ao conservadorismo republicano. Esta mulher se casará com um carnívoro, fã de Bruce Springsteen, assinante da National Geographic, inseparável de seu boné do New York Yankees; um consumidor voraz de hot dogs e entusiasta de churrascos no Quatro de Julho; leitor de ficção científica e policiais do tipo Tom Clancy; um homem alto e volumoso como um wrestler, e bom de cama; loiro e queimado de sol de tanto andar por aí à procura de Ródanos; admirador de Charlie Parker, mas que gosta mesmo do bom rock branco americano: Elvis Presley e Beach Boys.

No dia 11 de abril de 1983, aos 37 anos de idade, Eva Katchadourian dará luz a Kevin, seu primeiro filho, ainda insegura quanto ao papel de mãe que representará daí por diante ― ao contrário do seu marido Franklin, tranquilamente à vontade como pai. Embora não se pareçam, não guardem semelhanças culturais e familiares e nem sobre como educar uma criança Eva e Franklin estejam em sintonia, eles se casaram por amor e maduros o suficiente para se reconhecerem e se aceitarem como oriundos de mundos distintos. O primeiro filho, contudo, poria em andamento o lento processo de desgaste conjugal.

A própria gravidez não havia sido um período calmo. Algumas mães, como Eva, aprendem que a maternidade exige aprendizado; e aprendem que o período em que carregam um ser humano na barriga pode não ser aquele estado de graça tão falado, mas uma anulação de identidade em nome de uma ervilha, que lentamente se tornará uma melancia. No caso de Eva, o sentimento de coadjuvante na sua própria vida fora irritantemente acentuado pela maneira equivocada como o vigilante Franklin e a maioria dos homens concebem uma buchuda: quebrável. Pelo breve retrato que você teve de Eva, é fácil imaginar o quão incômoda fora a gestação.

Então nasce Kevin. Filho de um pragmático, sólido e generoso pai, que, além de tudo, tinha de sobra o pecadilho dos autoconfiantes, a boa-fé, e de uma crítica, mutável e voluntariosa mãe. Este menino, quando adolescente, colocará à prova todos os limites de compreensão e tolerância dos pais, sobretudo da mãe. Não só isso: à prova também estará toda a capacidade de amar o próprio filho, pondo em xeque, assim, a incondicionalidade do amor materno.

Kevin Katchadourian ― KK ― será o assassino de familiares e colegas de escola numa quinta-feira que ficará conhecida como "o massacre de Gladstone". O filho de Eva matará uma dúzia de pessoas de forma hollywoodiana (sem dúvida, um extermínio originalíssimo). A obra de Kevin causaria inveja aos demais teen killers norte-americanos, até porque, ao contrário do corriqueiro, a chacina não terminou no covarde suicídio do autor. Ele foi além. Não culpou nada nem ninguém por seus atos. Fizera tudo com a cristalina consciência de matar.

>Imagine que este seja seu filho. E agora? Esta pergunta é um dos Leitmotiven do romance Precisamos falar sobre o Kevin (Intrínseca, 2007, 464 págs., tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro), de Lionel Shriver.

E agora, que o ser humano que você pôs no mundo é um assassino frio e cruel; que as atitudes do seu filho pulverizaram de sua vida todas as possibilidades de ser feliz; que aquele menino que você achava que conhecia é, na verdade, um total estranho; e agora, você o ama? Mais: em que medida nós, os pais, somos responsáveis diretos por estas chacinas escolares? Ou elas são frutos de nossa (norte-americana) cultura armamentista e xenófoba contra a qual os pais não podem fazer nada? Aliás, é possível culpar assim a cultura em que vivemos como se não fizéssemos parte dela? Isso é possível? Parece uma maneira de se eximir da culpa... mas somos mesmo responsáveis por tudo que nosso filho faz? Que linha separa a vida do filho ― que é só dele ― da educação que lhe damos? Quando ele se desvia de tudo, absolutamente tudo o que ensinamos, cometendo uma chacina infame, você o amará?

Estes e outros questionamentos são continuamente levantados pela narradora Eva Katchadourian no romance de Shriver sem nunca parecerem maçantes ou repetitivos. Pouco mais de um ano depois da tragédia, com Kevin devidamente lacrado numa prisão para delinquentes, Eva, agora morando só, inicia uma correspondência com Franklin ― escreve cartas para entender o que aconteceu, para dar notícias de sua nova rotina, para recompor-se catarticamente, para deixar o marido a par de sentimentos sufocados pelo casamento. Por ser um romance epistolar, tudo é abordado de forma simples e intensa. Enfim, confessional.

(Lembro de Michel Leiris: "O que desconhecia é que na base de toda introspecção há o gosto de contemplar-se, e que no fundo de toda confissão há o desejo de ser absolvido.".)

O poder de reflexão moral de Shriver é impressionante. Não à toa fora comparada a George Eliot. Suas reflexões vão desde as mais íntimas de Eva Katchadourian às mais abrangentes, e neste ponto faz parte do time de Bellow, Roth e Updike, as sobre a cultura ocidental no que diz respeito a educação, maternidade, gênero, infância, sexo. Estas análises nunca parecem fora de contexto, aliás. Funcionam organicamente em todo o romance e, o que é mais espantoso, estão sempre ligadas à vida da própria Eva.

Ainda não importamos as chacinas escolares. Digo, não da maneira como são executadas lá na América do Norte. Nossas chacinas não têm os requintes cinematográficos de Columbine nem, muito menos, da fictícia Gladstone (a do Kevin), mas jovens são assassinados em salas de aula todos os dias nas escolas de subúrbio mais próximas ― ou menos distantes ― de você. Lá, nos EUA, matam porque "high school sucks", como dizem os próprios perpetrators; aqui, porque a família é ausente, porque faltam condições de crescimento humano, porque exclusão social e delinquência compõem o dilema de Tostines etc. etc.

Tento não relativizar os motivos que levam os atormentados adolescentes norte-americanos a matarem seus colegas a bala, porque cada um sofre o tanto que aguenta. Okay, sofra, mas transformar este sofrimento em sangrenta morte alheia faz qualquer um questionar se este ser humano merece compaixão. E se ele fosse seu filho?

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Publiquei primeiro aqui.